Construir em terra nova exige uma coragem que só quem viveu sabe nomear
Escrito em 13/05/2026
GISLAINE SILVA DE BRITO BALZANO
Por Laura Sodré Galvão Garcia - @diekosmiklaura - https://laurasodrepsicoterapia.com/
Sou psicóloga e psicanalista junguiana, mãe de dois filhos e brasileira vivendo na Alemanha.
Minha trajetória como imigrante atravessa também minha escuta clínica, especialmente no acompanhamento de pessoas que vivem processos de transformação, adaptação e busca por uma vida mais autêntica.
Acredito na potência dos ciclos, da escuta profunda e dos encontros honestos consigo mesmo.
Além da clínica, busco viver com presença, encontrando beleza e sentido nos pequenos momentos da vida, na natureza, nos vínculos e nos gestos simples do cotidiano.
Mãe Imigrante
O que foi mais difícil de deixar para trás quando você decidiu ou precisou emigrar e como isso impactou a sua forma de maternar num lugar novo?
Deixar para trás minha família, meus amigos, meus animais de estimação e toda a vida construída na cidade onde cresci foi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida.
Existe um luto silencioso em emigrar: você parte fisicamente, mas partes de você continuam habitando os lugares, as pessoas e a rotina que um dia chamaram de lar.
Maternar longe da rede de apoio, em meio às dificuldades de adaptação, diferenças culturais e solidão, me fez tremer muitas vezes.
Houve momentos de exaustão, medo e sensação de não dar conta.
Mas também foi justamente nesse atravessamento que descobri forças em mim que até então desconhecia.
Ser mãe em outro país me transformou profundamente.
Aprendi a sustentar mais a mim mesma, a criar novos sentidos de pertencimento e a confiar na minha própria capacidade de cuidar, reinventar e continuar, mesmo quando tudo parecia incerto.
Hoje vejo que, junto com a dor da distância, nasceu também uma versão mais forte, sensível e consciente de mim mesma.
Como é criar filhos entre duas culturas e dois idiomas? O que você quer que eles guardem de cada uma?
Criar filhos entre duas culturas e dois idiomas é, ao mesmo tempo, desafiador e muito bonito.
É interessante observar meus filhos se apropriando da língua alemã, dos seus sistemas de significados e da cultura ao redor deles quase de forma natural.
Às vezes percebo que eles conseguem habitar mundos que, para mim, ainda exigem tradução interna.
Acredito que crescer falando duas línguas vai muito além da comunicação.
É aprender a transitar entre diferentes formas de ver a vida, desenvolver flexibilidade, empatia e a capacidade de pertencer a mais de um lugar sem precisar abandonar partes de si.
Do Brasil, desejo que eles levem a afetividade, o calor humano, a espontaneidade, o cuidado com os vínculos e a alegria tão presente na nossa forma de viver.
Da Alemanha, espero que guardem a estrutura, a autonomia, o senso de responsabilidade, o aprendizado e as possibilidades que se abriram para eles vivendo aqui.
No fundo, meu maior desejo é que eles cresçam sentindo que podem construir uma identidade própria, rica e plural, levando consigo o melhor dos dois mundos.
De que forma a imigração impactou o seu negócio ou o seu trabalho? O que você teve que reinventar para construir em terra nova?
A imigração transformou profundamente meu trabalho e a forma como compreendo os processos humanos.
Hoje, minha clínica é quase totalmente voltada para imigrantes: acompanho brasileiros e portugueses vivendo em mais de seis países diferentes e, aos poucos, também estou expandindo meu trabalho para falantes de inglês.
Viver fora do Brasil me levou a perceber com mais profundidade quantas camadas emocionais, sociais e identitárias habitam uma pessoa.
Muitas vezes, na rotina automática da vida, não conseguimos enxergar os desgastes internos que carregamos.
Mas a mudança para outro país costuma fazer tudo isso emergir com força às vezes de maneira silenciosa, através da solidão, do sentimento de não pertencimento, da exaustão ou da sensação de perder referências de si mesmo.
Precisei reinventar minha forma de trabalhar, aprender a construir vínculos à distância e criar espaços de escuta que acolhessem experiências muito específicas da vida no exterior.
Ao mesmo tempo, minha própria experiência como imigrante trouxe mais profundidade e verdade para minha clínica.
Acredito que, quando conseguimos reconhecer e elaborar esses processos em análise, nos tornamos mais fortes, conscientes e coerentes com quem realmente somos.
Você já sentiu que precisava provar mais do que os outros para ser aceita, seja como mãe, como mulher ou como empreendedora?
Sim, muitas vezes. Acho que a imigração potencializa essa sensação, porque você precisa reconstruir sua vida, sua identidade profissional e até sua sensação de pertencimento enquanto ainda tenta dar conta de tudo emocionalmente.
Como mulher, mãe e empreendedora, muitas vezes senti que precisava estar constantemente provando competência, força e capacidade de adaptação.
Existe uma pressão silenciosa para conseguir sustentar tudo sem fraquejar: os filhos, a casa, o trabalho, a saudade, as burocracias, a adaptação cultural.
E, vivendo fora, às vezes parece que precisamos trabalhar em dobro para sermos reconhecidas ou levadas a sério.
Ao mesmo tempo, esse processo também me ensinou muito sobre autenticidade.
Com o tempo, fui entendendo que meu valor não precisava estar apenas na performance ou na tentativa de corresponder expectativas externas.
Hoje acredito que existe muita força em conseguir sustentar quem somos, mesmo em territórios desconhecidos.
O que você diria para uma mãe que está chegando agora num país novo e que está com medo de não conseguir?
Compreenda que começar do zero em um novo país exige tempo, energia e coragem.
Não se desespere se a adaptação parecer mais difícil ou mais lenta do que você imaginava.
Permita-se viver esse processo sem se cobrar perfeição.
Procure grupos de apoio e espaços de troca de informações no seu idioma e na sua região.
Construa vínculos com pessoas que estejam atravessando experiências parecidas.
Aprenda o idioma local e pratique o máximo possível, mesmo com medo ou insegurança.
Aos poucos, isso ajudará você a construir autonomia e pertencimento.
Busque ajuda psicológica se sentir necessidade.
Emigrar mexe profundamente com a identidade, os vínculos e a sensação de segurança.
E, acima de tudo, permita-se morrer e renascer quantas vezes forem necessárias.
Aceite que algumas versões suas precisarão ficar para trás para que outras possam nascer.
Confie que, mesmo em meio às dificuldades, existe também a possibilidade de descobrir forças e capacidades que talvez você ainda não conheça em si mesma.
Por Laura Sodré Galvão Garcia - @diekosmiklaura - https://laurasodrepsicoterapia.com/
Sou psicóloga e psicanalista junguiana, mãe de dois filhos e brasileira vivendo na Alemanha.
Minha trajetória como imigrante atravessa também minha escuta clínica, especialmente no acompanhamento de pessoas que vivem processos de transformação, adaptação e busca por uma vida mais autêntica.
Acredito na potência dos ciclos, da escuta profunda e dos encontros honestos consigo mesmo.
Além da clínica, busco viver com presença, encontrando beleza e sentido nos pequenos momentos da vida, na natureza, nos vínculos e nos gestos simples do cotidiano.
Laura Garcia faz parte do Movimento Lady Day Academy fundado por Gislaine Balzano e estrategista de negócios, imagem e marca pessoal, mentora de empreendedoras e empresárias e fundadora da Lady Day Academy.
Diretora executiva de moda internacional com projetos em Londres, Paris e Milão. @ladydayacademy e @gislainebalzano
Um convite para você
Se essa leitura te tocou de alguma forma, quero te fazer um convite.
Estou reunindo 30 mulheres que estão prontas para olhar para a própria história com mais verdade e começar a sustentar, com consciência, os papéis que vivem hoje.
Não é sobre dar conta de tudo. É sobre parar de se abandonar no meio do caminho.
As vagas são limitadas porque esse espaço precisa ser vivido com profundidade, não com pressa.